quarta-feira, 6 de maio de 2026

NEGAÇÃO & CONSOLO

As inconsistências discursivas de apoio ou negação tomaram o lugar do sagrado, fazendo com que as pessoas gastem suas energias em disputas rasas que, verdadeiramente, não contribuem para um real desenvolvimento, seja ele qual for.

Lembro do show da Shakira nas areias de Copacabana, no último dia 2 de maio e da imensidão de público, oriundo de todas as partes do país, balançando leques e transbordando fidelidade a uma artista que sequer é brasileira. Não pensem que sou contra ou que não admito a necessidade humana de ter seus próprios ídolos, sejam nacionais ou não. No entanto, inevitavelmente penso no quanto seríamos um país mais harmoniosamente progressista se tivéssemos esta mesma intenção e devoção às causas de valores imprescindíveis, como saúde e educação.


Penso no quanto estaríamos brilhando como cidadãos, tal qual o palco dos grandes astros, se entendêssemos o valor dos valores humanitários que são sistematicamente soterrados pela nossa omissão individual. 

Perdemos tempo precioso discutindo opiniões dadas nas redes sociais, apoiando ou não esta ou aquela declaração de alguém, chamando isso de participação social, liberdade de expressão e "patati-patatá", enquanto crianças são baleadas nos confrontos entre as polícias e bandidos. Seres humanos morrem por falta de regulação devido a um sistema de saúde precário, mesmo tendo sido, incrivelmente, bem elaborado. Alunos entram e saem das escolas públicas de qualquer cidade se não totalmente analfabetos, com certeza precariamente instruídos, enquanto políticos subtraem escancaradamente os erários públicos que poderiam suprir estas e infinitas outras demandas absolutamente necessárias ao bem-estar de cada cidadão.

Por que este nosso fascínio pelos facínoras engravatados? Por que mantemos no poder os chacais da qualidade possível de nossas vidas? 

Fico me perguntando, sem nunca chegar a uma conclusão lógica, por que somos livres e destemidos e, ao mesmo tempo, prisioneiros do continuísmo absurdo da negação quando a questão é social e política, onde a moral, a ética e o bem comum estão ausentes. 

Fuga da realidade dura da sobrevivência? 

O que nos impede de nos mobilizar em favor do estabelecimento do equilíbrio social?

Dois milhões de cidadãos de idades variadas foram contabilizados no último show que, só por parte do governo do Rio de Janeiro, custou aos cofres públicos 20 milhões. E então, como afirmam faltar dinheiro para ampliar hospitais, aparelhar as polícias e qualificar escolas? Para esses detalhes, ninguém se mobiliza formando grupos ativos e participativos para questionar, coalhando as areias e avenidas de forma maciça e continuada, abanando leques, bandeiras e cartazes em prol de uma reforma geral e irrestrita. Falta empurrar, com a força da cidadania, ladeira abaixo, todos os desmandos que se sucedem nas manchetes dos noticiários e que, até o momento, chocam, mas só são entendidos quando batem na própria porta, restando apenas lamentar.

Bonito dizer que o Brasil é o país da alegria, da música e do "siriguidum" das mais belas mulheres do mundo. Feio é quando nos deparamos com o mau cheiro produzido pela nossa alienação doentia, que promove o alheio em risos e sons enquanto os gritos dos nossos excluídos continuam sendo abafados pelas migalhas oferecidas e pela nossa cada vez mais poderosa negação cidadã. Onde estão os líderes religiosos das infinitas igrejas, templos e terreiros, os ativistas sociais e os raros políticos que, mesmo numa assustadora minoria, não conseguem arregimentar seus fiéis e apoiadores na formação de esquadrões de resistência pelo Brasil afora?

Possível é, tanto que sempre existiram exemplos de mobilização social. Todavia, as mídias não lucram com elas e, portanto, não as promovem como incentivo, mantendo-as como ações isoladas. Falar de Deus é fácil, pregar amor é mais fácil ainda entre quatro paredes. O difícil é vivenciá-los ao ar livre e, mais difícil ainda, reverberá-los no cotidiano, deixando assim a barbárie como protagonista e a ilusão como consoladora.

Regina Carvalho – 6.5.2026 – Pedras Grandes, SC

llustração: IA

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