Sim, com certeza. O fato de burilar diariamente minhas emoções não faz de mim uma pessoa totalmente imune às derrapadas que o cotidiano oferece incessantemente. Afinal, não sou um punhado de frases de efeito e de textos pré-fabricados a fim de repassar um equilíbrio intocável. Quem dera. Mas será que, repassando-me como uma fortaleza blindada pelos anos de reflexões, leituras e vivências, eu não estaria soterrando a humanidade sensível que sempre residiu em mim e que me mantém apaixonada pela vida, com os seus prós e contras?
Sim, creio que sempre estarei vulnerável a alguma questão cuja complexidade não consiga compreender. Mesmo que, a olhos vistos, possa parecer fazer parte do mesmo bolo do não mensurável como aceitável, ainda mais em se tratando de uma convivência interpessoal que a cada dia se especializa em como nadar no lodo das conveniências.
Ainda me choco, choro e sinto mágoa. Ainda, quase que infantilmente, espero receber de volta o abraço amigo e compreensivo que ofereci.
Ainda não, e espero jamais me tornar fria e indiferente ao outro. Assim como derrapar numa ou noutra decepção sempre exigirá de mim um imediato expurgo, já que mastigar frustração é o mesmo que ingerir veneno oferecido somente aos ratos. E eu sou gente, e não rato.
Portanto, não esperem de mim um equilíbrio que outros garantem existir através deste ou daquele método, já que nada tem força suficiente para conter a presença constante da indiferença, que nada mais é que uma espada afiada sempre à espreita para ceifar a mais elaborada autoestima.
O que existe, e que resta a mim e a você que me lê, é a velha sensatez. Ela que, mesmo magoada, ferida ou acorrentada por um sistema social e político contaminado pela busca do sucesso a qualquer preço, mantém ainda forças para o passo seguinte, avaliando-se ainda vulnerável às intempéries provocadas pela degradação do individualismo criminoso que indubitavelmente assusta, atordoa e, se facilitar, invade e mata.
A questão, então, não é se tornar um Golias vencedor de todas as batalhas dos cotidianos, mas um resistente combatente, cujo maior mérito é reconhecer as suas limitações com fé e esperança em dias melhores, jamais permitindo que a busca do sucesso tire de si a bendita sensibilidade.
Sim, sou vulnerável, mas, ainda assim, capaz de não fugir de nenhuma responsabilidade mantendo-me de pé, mesmo que as pernas estejam bambas de receios e temores, mesmo que o coração esteja machucado e dolorido para enfrentar e defender as minhas convicções.
Regina Carvalho – 15.5.2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração -IA

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