Ontem, após o almoço, o frio era tanto que só mesmo enrolada em uma manta bem quentinha me foi possível suportá-lo e pensar que ainda estamos no outono, cruz credo.
Aí, como não lembrar do argumento para lá de fajuto que diz que dinheiro não traz felicidade. Como não traria? Afinal, se o tivesse, teria um sistema de aquecimento interno que me permitisse circular dentro de casa até pelada, se me aprouvesse, já que sem grana, tirar a roupa para um simples e diário banho é uma sessão de tortura.
Pois é, esta e outras tantas afirmativas ganham fôlego na profusão das novas perspectivas a serem alcançadas e dos novos valores já implantados para serem usados no alcance dessa conquista. Aí, até para mim que estou sempre atenta, o risco da contaminação televisiva e online é real. Penso então o que fazer se não há trégua na invasão nas telas de qualquer natureza.
Como o dia de hoje é dedicado às mães e, até então, o velho avental todo sujo de ovo, sucesso musical de Angela Maria foi expurgado como referência de presença materna nos ambientes, antes lares, resta como consolo, a depender dos recursos de cada filho, os corredores dos shoppings, as calçadas ou feiras com suas barracas e as sempre mensagens adocicadas onde a mulher geralmente é apresentada como uma guerreira solo das batalhas cotidianas.
Todavia, as mulheres que em sua maioria se encontram como soldadas urbanas, carregando bolsas e sacolas de plástico em vez de glórias, na realidade não estão satisfeitas. Apenas seguem no automático o que as circunstâncias oferecem a cada uma, a fim de não sucumbirem à dura realidade de que podem perder até mesmo o direito de terem um banheiro público só para si.
Rainhas de supostos lares sem reis, guerreiras feridas pelo chicote implacável do abandono e maus-tratos e silenciadas pela mordaça do constante medo de adoecer e não darem mais conta.
Mães do século 21, ricas ou pobres, nada mais são que símbolos resistentes do que já foi e que em breve desaparecerá em nome do progresso, da indução inclusiva midiática, do politicamente correto e dos desvarios congressistas que chamam de constitucional. Enquanto o desfile dos horrores que a psicologia explica e o bom senso ignora, lá estou eu, deitadinha no sofá quentinho, agradecendo a Deus por não estar numa calçada qualquer, dolorosamente esperando um ônibus para ir ou vir de uma ocupação também qualquer, onde só mesmo o bendito senso de maternidade é capaz de sustentar
.Quem disse a você que me lê que nesta situação eu já não estive, resguardada em parte pelos insumos do estudo e das referências domésticas nas quais fui estruturada, onde mãe e pai eram figuras reais e palpáveis e o feijão com arroz, mesmo sem a presença da carne, era um banquete dos deuses.
É fato que dizem que dinheiro não traz felicidade, mas com certeza nunca se roubou e se matou tanto para tê-lo.
É fato que não se tem mais mães como as de antigamente, mas também a maternidade nunca foi tão descaracterizada e substituída através das concorrências desleais.
Nada mais é capaz de resistir às escaladas do progresso, cuja motivação é o dinheiro, mesmo tendo quem insista que ele não traz felicidade, consolo eterno para quem não o tem.
E viva o dia das mães entre o fogo cruzado das polícias e dos bandidos, na covardia de meia dúzia de generais, na safadeza dos políticos, na corrupção que abraçou descaradamente a Justiça e na alienação forçada da cidadã, caminho minimamente seguro que a mantém ainda de pé, segurando o estandarte do amor incondicional no abre-alas cruel desta era da barbárie progressista.
Desculpem-me por ainda não conseguir fingir que está tudo bem.
Regina Carvalho- 10.5.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA

Nenhum comentário:
Postar um comentário