Olho, neste amanhecer, através do vidro da porta da sala. O frio está intenso, mas ainda assim posso enxergar uma profusão de tons variados do verde da mata que se escancara despudoradamente e gosto de pensar que é só para mim. Talvez o seja. Por que não, se fiz deste hábito uma oração a cada amanhecer?
Enquanto vislumbro toda esta beleza, lembro-me das Confissões de Santo Agostinho, cuja leitura abriu em mim um leque de possibilidades que eu sentia existir, mas para as quais precisava de orientação para experimentar, mesmo receosa sobre o que iria encontrar. As contínuas inquietações seguidas de vazios, as ansiedades e os medos inexplicáveis, mas também a contumaz curiosidade levaram-me a esta leitura transformadora.
Hoje, pensando sobre isso, percebo sorrindo que, em momento algum, desejei ser uma pessoa "boazinha", perfeita ou coisa que o valha; apenas queria sentir harmonia entre o que o cotidiano me oferecia e o que eu buscava nele. Ao ler e reler por todos os anos que se seguiram, fui percebendo que fiz desta leitura um espelho.
Nele, pude enxergar-me em minhas grandezas e pequenezes, podendo assim acrescentar ou retirar emoções e sentimentos geradores de ações e reações, elaborando cuidadosamente o fluxo das minhas intenções.
Percebi, didaticamente, através desta leitura absurdamente humana, que minhas falhas não deveriam ser encaradas como fardos, castigos divinos ou desvios de caráter, mas como ricos aprendizados.
Essa aceitação, aos poucos, foi me dando um novo olhar em relação a tudo a partir de mim. Com o tempo, fui conseguindo caminhar de forma mais serena e repleta de generosidade em relação àqueles que não conseguem se libertar do materialismo e que, portanto, não conseguem doar o melhor de si, reconhecendo com gratidão sua própria existência e o privilégio em tê-la pulsante e potencializada.
Lembro que muitas vezes dizia a mim mesma que não tinha tempo para leituras, muito menos para buscar nelas um autoconhecimento, quando, na realidade, sentia um medo não confessado. Eu sabia tratar-se de um labirinto secreto, repleto de desafios a serem superados.
Medo do desafio de parecer "piegas" por sentir gratidão por ser o que era e ter o que tinha, sem perder o desejo de se amar e ser amada um pouco mais.
Medo de reconhecer que, para tudo o que doava, esperava recompensa imediata. Medo de parar para reconhecer a própria originalidade. Afinal, como seria? Poderia eu consertar aqui ou ali minhas grosseiras falhas?
Medo de admitir que o sucesso em certos aspectos se estabeleceu a olhos vistos, mas que, lá dentro, persistia um baú de insatisfações.
Lendo Santo Agostinho, humanizei o meu olhar em relação à vida e a tudo o que nela existe, começando por mim. Fui aprendendo que o silêncio da leitura me obrigava a retirar as máscaras e mergulhar em mim mesma, não para me isolar do mundo, mas para transformar a minha convivência, deixando a bendita humildade florescer.
É ela que abre espaço para compreendermos nossos próprios limites e os dos demais. Percebi que somos todos aprendizes e, com este esclarecimento, passei a julgar menos e acolher mais.
Fiz deste livro meu parceiro no dia a dia. Assim, deixo fluir a minha existência nas águas benditas de uma vida plena da maior riqueza que uma pessoa pode conquistar: sentir-se, por todo o tempo, cercada de amor. Mesmo que, aos olhos de alguns e de um mundo nem sempre amável, eu nada represente além de poeta.
Regina Carvalho- 9.5.2026 – Pedras Grandes, SC

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