quarta-feira, 29 de julho de 2026

HUMOR DA NATUREZA

Gosto de ouvir Vivaldi em suas “Quatro Estações”, que descrevem desde a exuberância da primavera até o drama do inverno. Ele captura, com sensibilidade, as variantes do humor da natureza. Nós, por outro lado, muitas vezes somos capazes dessa alternância em um único dia, o que, antes de tudo, nos exaure profundamente.

Se nessa excepcional obra de arte essa variação é simplesmente enriquecedora, em nosso emocional ela desgasta e nos enfraquece. Tira-nos grande parte da sensibilidade e altera mais do que o humor, já que desenvolve um profundo enfado, primo-irmão da impaciência que, afinal, nos rouba a tolerância. E a tolerância é absolutamente necessária a fim de que possamos desenvolver relacionamentos menos conflituosos.


Na realidade, não existe uma cartilha definitiva capaz de nos ensinar a conviver com o diferente e até com o contrário. Ficamos expostos às infinitas teorias que pululam hoje em dia na internet, cada qual rotulando-se como milagrosa. Prometem de tudo: desde uma imersão espiritual de final de semana até cursos, receitas, exercícios físicos e respiratórios. 

Agem como se fossem capazes de, num estalar de dedos, livrar-nos das ansiedades que nos invadem, mesmo quando estamos sozinhos e em supostas meditações.Nada que represente mudanças consistentes e duradouras acontece de repente. Tudo ocorre através de um laborioso polimento existencial que exige mais do que boa vontade pessoal; cobra coragem e renúncias, num contínuo desapego que, a princípio, parece quase impossível, pois hábitos e costumes se camuflam de necessidades imprescindíveis.

E aí, pensamos: "O que pensarão de mim?". O nosso lugar conquistado no mundo passa a ser mais do que posições ocupadas. Torna-se, acima de tudo, uma espada afiada que fere e sufoca, com uma dor silenciosa e íntima, cada real necessidade não alcançada.

Trata-se de uma dor silenciosa aos ouvidos comuns, mas não ao corpo e à mente, que passam a gritar desesperadamente por socorro através de noites mal dormidas e de doenças desde as mais primárias até as mais devastadoras, quando não induzem a criatura ao próprio extermínio.

Penso, então, que só há um caminho onde se possa ir aliviando a tensão vivencial: autoavaliar-se. É preciso polir aqui e acolá, na medida em que o abalo sísmico à sua volta não acarrete reações desastrosas. 

Devemos ir, sensivelmente, nos observando e acrescentando umas gotinhas de amor-próprio a cada movimento de respeito a nós mesmo. Aí, depois de algum tempo, a tal da harmonia pessoal começa a se deixar ver em ações e, principalmente, em reações.

Afinal, devemos copiar a natureza. Todavia, também ela se alterna. Se bem que, de umas décadas para cá, cansada de tanta violação ao seu direito de ser o que é, ela se revolta intempestivamente, não respeitando sequer as características de cada estação. Portanto, precisamos ter cuidado para não nos tornarmos cópias de uma natureza já doente, com dificuldades em se colocar devidamente no espaço terreno e cósmico.

É preciso que saibamos nos deixar envolver emocionalmente pelas cores e perfumes da primavera, assim como devidamente aquecidos pelos sóis do verão, a fim de suportarmos os ventos fortes do outono e as friagens do inverno, cada vez mais rigoroso.

Regina Carvalho — 29/07/2026 — Pedras Grandes, SC.

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