HERANÇA PERVERSA foi a que nos deixou Portugal, quando aqui desembarcou os desterrados incômodos de sua terra em todos os segmentos da vida humana, já que 526 anos depois, tudo permanece, reciclando-se com o tempo e os naturais avanços industriais, científicos e tecnológicos.
Penso abusadamente que Deus se antecedeu, já sabendo deste castigo que sofreríamos de forma ininterrupta, e nos acalentou poupando-nos de furacões, tornados e todas as demais tormentas que distribuiu mundo terreno afora. Afinal, bem sabia o povo que por aqui se formaria, mesmo sofrendo as originais e pacíficas influências indígenas e dos sofridos escravizados que logo desembarcaram trazendo consigo a dor do desterro e da submissão como salvaguarda de suas próprias vidas.
Deus deu-nos uma costa ampla e belíssima, uma vegetação volumosa e diversificada que cobriria de norte a sul um dos mais ricos e fartos territórios que sua imaginação divina foi capaz de criar, deixando salpicado pelo ar o pó do sorriso e da resiliência. Mas ainda assim, mesmo sendo o senhor divino do universo, não se viu capaz de impedir os maus caratismos que, como um vírus contaminador, se propagaria na mesma proporção da proliferação do povo. Imediatamente, percebendo o caos que se formaria, tratou de semear no vasto solo a criatividade, a inteligência e o senso amoroso.
De lá para cá, tudo o que se vê é um povo dividido, que mesmo em sua maioria sem eira nem beira de qualquer maior entendimento pátrio, é capaz de se unir para dançar nos terreiros sistêmicos, cujos sons se alternam do maxixe ao samba-enredo, do tambor ao trio elétrico.
As Histórias bem contadas pelos doutores acadêmicos eliminam os detalhes sórdidos, repassando às gerações que os seguem os contos da carochinha, tampando o sol com a peneira sob os auspícios de uma sociologia suspeita, uma antropologia preguiçosa, sob a guarda prestigiosa de uma comunicação que, como um mercado livre, vende sardinha como se fosse robalo em pacotes coloridos ao maior preço de seu único interesse, fechando assim portas e janelas a qualquer sobrevivente desta doença genética que assola todo o continente, quando este, solitariamente, aponta o perverso engodo.
Portanto, não há o que estranhar que os notórios engodos espalhados como ratazanas esfomeadas sejam chamados de PAINHOS. Afinal, num país onde sobreviver a qualquer preço seja o único chamado social, desconhecer e não desenvolver brio e dignidade são atributos absolutamente desnecessários para adentrar e se sentar ao lado de qualquer mequetrefe que ostente as nádegas sentadas nos tronos de também qualquer tipo de poder. E se for político, aí é que a coisa flui, já que a grana distribuída é do povo cuja ignorância em relação a quase tudo se espalha como rastilho de pólvora, com rumos e metas previamente definidas, fechando olhos e ouvidos a qualquer realidade, por mais esdrúxula que se apresente.
Regina Carvalho- 2.7.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA
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