Afinal, como na quase totalidade das posturas dos brasileiros, faltou aos jogadores entusiasmo, garra e senso de pertencimento. Observei, na chegada deles ao estádio, uma falta de brilho que seria absolutamente natural possuírem na ocasião já que duzentos e vinte milhões, mais outros tantos milhões de admiradores espalhados mundo afora, torciam pela apresentação de uma seleção no mínimo feliz pelo privilégio de lá estar.
Observei que os jogadores estavam apagados e alguns até bocejando, levando os comentaristas a disfarçarem, dizendo que eles estavam concentrados. Qual nada!
Naquele momento, enxerguei a mim e ao povo de meu país e, aos 20 minutos do primeiro tempo, não tive mais dúvidas quanto à nossa derrota. Afinal, por mais boa vontade que se tenha em promover desculpas, lá estava, na realidade, a imagem do derrotismo de um povo que, por mais alegre e esperançoso que se mostre, tornou-se inerte. Já não possuímos há muito a garra da luta que nos caracterizou em épocas passadas, por mais que a Globo tenha promovido e os anunciantes tenham investido.
Como patriota, imediatamente pensei na seleção de Cabo Verde e confesso que senti inveja da vontade deles de lutar e fazer bonito, que foi muito maior que a vontade de vencer.
Será que estou me fazendo entender?
Lembrei-me do cronista e comentarista Nelson Rodrigues e de seu eterno jargão ao diagnosticar o povo brasileiro com o complexo de vira-latas. A dureza de seu diagnóstico estaria errada? Nem tanto, se observarmos a aceitação passiva das ignomínias de atos, palavras e posturas em situações que causam desonra e humilhação.
temos aceitado como normais verdadeiras infâmias oriundas das esferas pública e privada que promovem, sistematicamente, a perda da dignidade de cada cidadão, gerando a desqualificação do bem, do justo e do nobre a favor de falácias e crepons coloridos, mas enganadores, que pouco a pouco foram sendo absorvidos como verdades absolutas.
Senti a amargura ao assistir a nossa seleção brasileira desde o primeiro jogo, já que sua atuação foi sofrível tal qual a nossa cidadania.
Pessoalmente quero, mas não sei se estarei viva em 2030, quando então novamente lá estarão buscando um Hexa. Afinal, tudo o que sei é que hoje a derrota do Brasil mostrou duas situações. A primeira é que o Brasil chegou ao fundo do poço neste ano de 2026. A segunda é que, de repente, esta derrota possa vir a ser o primeiro lance de uma subida obrigatória, caminho único a fim de nos salvarmos deste buraco sem luz própria em que os cidadãos brasileiros caíram, levando consigo um país rico, belo, acolhedor e musical, por já não mais conseguirem dar um jeitinho em suas próprias vidas, já que a fome, a miséria humana travestida ora da ignorância, ora da ganância em todos os níveis, a violência e o descaramento público perderam seus limites de contenção
.É PRECISO MUDAR, não resta a menor dúvida, a indumentária de nossos critérios avaliativos.
Regina Carvalho - 05/07/2026 - Pedras Grandes, SC.
Ilustração -IA
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