Durante muito tempo, senti-me uma pessoa meio retrô -abreviatura de retrógrada , principalmente por manter um estilo de pensar e agir fora da atualidade. Todavia, com o passar do tempo, fui compreendendo que não. Afinal, nunca fui uma reinterpretação de absolutamente nada; apenas segui a mesma tendência na qual fui educada, mesmo precisando, por uma questão de absoluta sobrevivência, adaptar-me às mudanças radicais que se apresentaram em minha vida.
Rica ou pobre, minha original visão de valores e posturas manteve-se intacta, fazendo de mim, talvez, uma pessoa vintage, já que fui moldada física e emocionalmente entre os anos cinquenta e sessenta. Fui regada constantemente pelo romantismo de uma era onde o ouro de 20 quilates e as bijuterias eram imediatamente identificados.
Daí o fato de eu ter conservado princípios avaliativos básicos que nenhum modernismo oportunista foi capaz de empanar. Eles traçaram em mim um véu invisível, mas poderoso, a fim de assegurar-me ideais de convivência e um humanismo progressivo para a época, em que o “pode parecer” ou o “politicamente correto”, formas de exercer a hipocrisia que sempre existiu, eram enfrentados com rigor.
Foi uma época em que os falsos valores foram identificados por uma linda e criativa juventude, embasada nos resquícios do pós-guerra. Aquela geração não queria mais para si o falso e o destrutivo; jogou por terra tudo o que feria o lógico e o palpável, trazendo, através de seus talentos originais, o novo em todos os aspectos sociais, sem que para tanto precisassem esfarelar o já existente. Preferiram mostrar destemidamente a que vieram, deixando cada qual livre com suas avaliações, evitando o vitimismo e a terceirização de culpas.
Nos tempos que se seguiram, infelizmente, observei que alguns dessa geração, que rasgaram aspectos viscerais do tradicional sem destruí-los, acabaram, mais adiante, rendendo-se às pressões. Tornaram-se apenas cópias desbotadas num banal progressismo sem base que o sustentasse.
Cresci, estudei e me casei exatamente nos anos sessenta, quando o mundo conheceu a contracultura através de Martin Luther King Jr., John Kennedy, Mary Quant, Brigitte Bardot, Vinicius de Moraes, Roberto Carlos, Bossa Nova, Carlos Santana e o Chanel nº 5. Este último, apesar de criado em 1921 por Gabrielle "Coco" Chanel e Ernest Beaux, mantém-se até hoje como único em originalidade e qualidade. Isso atesta que o que é realmente valioso não muda, e muito menos se esgarça.
Na realidade, eu poderia passar o domingo listando pessoas, criações e movimentos libertários que me forjaram. Com tudo o que acompanhei, torna-se difícil dobrar-me a supostas novidades das gerações seguintes, onde as referências foram desfiguradas em prol de verdades absolutas e pioneirismos fantasiosos, movidos por interesses pessoais ou grupos oportunistas.
Portanto, constato sorrindo, numa avaliação que enaltece minha fabulosa autoestima, que sou apenas uma pessoa vintage. Enquanto os pássaros se guarnecem da chuva nos galhos desta natureza que se descortina à minha frente, criando um fundo musical sob o aroma fantástico de terra molhada, aceito: sou clássica, antiga, de época.
Pode uma mulher dessas ainda existir em uma era onde o descarte, a depressão e o volúvel fazem parte da rotina?
Louvadas sejam as energias que me nutrem...
Regina Carvalho-26.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração-IA

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