Dizem que quando ficamos lembrando ou sonhando constantemente com familiares falecidos é porque estamos nos aproximando da partida. Lembro-me de meu querido sogro que, em certo período, diariamente durante o café da manhã, relatava as lembranças do sono daquela madrugada. Enquanto isso, incansavelmente, minha sogra dizia: "Para com isso, Tião, ou logo estará se encontrando com eles". Todos riam, inclusive ele.
Coincidência ou não, meses depois, saudável e passeando em Brasília, viagem que ele programou com extremo cuidado, providenciando um conjunto de roupas novas para cada um dos dez dias que decidira permanecer na casa de seu sobrinho Eli Walter Couto e assim, ele aproveitaria para rever amigos de uma vida inteira. No quinto dia, ele simplesmente deitou-se, como de hábito, para uma rápida soneca após um churrasco e se apagou, deixando o mundo certamente mais pobre sem a sua delicada ternura.
E aí, assim como ele, vaidosa e apaixonadíssima pela vida, às vezes me pergunto quando e como será o meu apagar, já que nesta noite, mais uma vez, sonhei com Donana sentada no seu tamborete me esculhambando. Como mineira do interior, ela não acreditava que uma urbana carioca espevitada, que sequer sabia coser uma meia furada, poderia fazer seu neto feliz.
Nada como o tempo e a convivência para, se for o caso, consolidar uma grande amizade e dela merecer o privilégio da confiança, permitindo que somente a carioca cuidasse dela até o seu último suspiro. Naquele momento, ela confidenciou-me ao pé do ouvido, para que ninguém mais ouvisse: "Não fica triste com as imbondos desse povo".
Ela, na sua genuína simplicidade, nem podia imaginar o quanto alimentava, com sua terna sapiência de mulher da roça, a minha autoestima. Naquele período, minha autoconfiança se arrastava em uma invalidez provocada pela inconsequência e maldades humanas. Como não lembrar dessas criaturas absolutamente lindas e amorosas que, como margens benditas, evitaram que eu transbordasse de frustração e dor por não compreender o que eu possuía de tão ruim que desagradava justo a quem eu tanto desejava expressar o meu amor? Por que me feriam sem piedade, numa tentativa incansável de me fazer desistir do homem de minha vida?
Todavia, como diz o ditado popular, o que não mata engorda. E cá estou, vivinha da silva, vivendo exatamente o que escolhi viver. Ainda posso lembrar, com o coração manso e adocicado, de quem me fez feliz e, com o mesmo coração, compreender que aquelas que me magoaram só ofereciam o que tinham para oferecer.
Se estou a qualquer momento indo reencontrá-los, que seja. Afinal, com certeza minha amada sogra Zizita estará na beira do fogão de lenha enfornando um tabuleiro de deliciosos pães de queijo, enquanto Donana, balançando as perninhas, dá palpites quanto à forma de Tião Couto pendurar, por sobre o vapor da fornalha, a linguiça que acabara de comprar.
Com certeza, sair de Ipanema para ir viver em São Gotardo, no oeste de Minas Gerais, fez esta carioca espevitada adentrar nos labirintos de si mesma, reforçando o que até então acreditava ser o seu destino: amar e amar, viver e viver sem medo de ser feliz. Quero dizer, medo eu tinha e vou ter sempre, mas este jamais me travou. Se ele me trouxe lágrimas que o tempo se encarregou de secar, trouxe-me também uma farta cachoeira de realizações que não me deixavam esquecer que a vida era bonita e, ainda hoje, é bonita, sim senhor.
Regina Carvalho- 16.4.2026 Pedras Grandes SC

Nenhum comentário:
Postar um comentário