Cinquenta anos se passaram desde que ajudei minha sogra, Zizita, a assar uma leitoinha para se tornar uma valiosa prenda a ser leiloada na quermesse da Igreja. Por aqui, chamam de festa da comunidade e os quitutes não são leiloados, mas vendidos em um almoço comunitário servido em mesas longas, num ambiente descontraído e solidário, onde sentam, lado a lado, amigos, vizinhos, parentes ou estranhos como eu, por exemplo.
Nesta festa beneficente em louvor a São Roque, organizada pela Igreja Católica, o foco é o mesmo: arrecadar fundos para obras sociais. São oferecidos bingos e sorteios, além de churrasco variado, saladas e um cardápio de acompanhamentos de primeira ordem.
Como não retornar ao passado, resgatando lembranças de São Gotardo e daquelas pessoas tão diferentes de mim, mas que me acolheram com respeito e carinho? O mesmo tem acontecido por aqui, reforçando a esperança de que, apesar de o mundo ter mudado tanto nessas cinco décadas, valores como religião, família e tradição cultural ainda resistem nas zonas rurais.
Enquanto conversava e comia um delicioso bombom de coco queimado, meus olhos viajaram para um jardim que se descortinava diante de mim. Ele exibia despudoradamente, como é habitual na natureza, um lindo exemplar de uma árvore recheada de cachos vermelhos; até agora, tento inutilmente me lembrar do nome.
Mãe, tudo bem? perguntou minha filha.
Sim, filha, estou ótima, respondi.
É que a senhora está há um tempão com o olhar perdido no vazio...
Estou só admirando a beleza do lugar e, como sempre, observando o que geralmente quase ninguém nota.
Os olhos podiam estar perdidos num aparente vazio, todavia, eu bem sabia o quanto minha mente, através deles, registrava e questionava a sempre absurda negação do nunca simples, do sempre belo e do incrível natural.
Bem mais tarde, já descansando em minha casa, recebi uma mensagem do amigo e escritor angolano Ricardo Ferreira. Eram alguns parágrafos poéticos em que ele descreve e, ao mesmo tempo, se integra encantado pelo pôr do sol de Itaparica. Isso trouxe até a mim mais um reforço quanto à certeza de que há, aqui ou em qualquer parte deste mundo, aqueles que bravamente não permitem que a vida, na sua mais significativa expressão, passe despercebida.
Concluo que os reais e sólidos valores, que verdadeiramente representam sustentáculos emocionais e amorosos em qualquer relação humana, não estão perdidos nesta seara evolutiva de hábitos, costumes, ciência e tecnologia. Estão apenas em desuso, já que sempre haverá uma turma de resistentes, aparentemente dispersa, que se reconhece mesmo à distância e se comunica trocando valiosos insumos que sustentam e dão sentido palpável à existência humana, através das mais variadas expressões artísticas, como contos, crônicas e poesias.
Bendito é o amor à vida que, como vírus persistente, contamina a todo aquele que se permite, nem que seja por instantes, simplesmente ser o que é.
LEMBREI: A árvore chama-se Flamboyant
Regina Carvalho-20.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA
"Amei" é a inquietude, a busca, o coração vasculhando "cantos e recantos".
"Itaparica Rica" é o repouso, a resposta, a plenitude às dezoito horas e dez minutos.
Uma dói porque procura. A outra cura porque encontra.
“E no meio dos dois textos está o Ricardo Ferreira inteiro: o homem dos três mundos que precisou atravessar Angola, Portugal e Brasil pra descobrir que o silêncio que ele buscava morava numa ilha da Baía de Todos-os-Santos.”
Do anfiteatro Eva Hertz lotado em 2013 até o cais de Itaparica ouvindo as ondas, a métrica do sucesso virou outra. Não é mais sobre 400 pessoas aplaudindo. É sobre uma tarde que não acaba vira um pôr do sol que basta.
Mas é em "Rica Itaparica" que a gente entende por que ele escreve: pra transformar embalo de mar em verso que embala a gente.
Amei!
Só voltei porque não te encontrei.
Procurei, procurei e não te vi.
Sabia que estavas lá, olhei, tentei te encontrar, mas não consegui, pois não te vi.
Busquei por todo o lugar, pequenos cantos e recantos.
Vasculhei, rebusquei as feridas vencidas, torcidas mas vividas.
Não te encontrei.
Regressei para mim, mas mesmo assim não deixo de te buscar e quiçá encontrar.
Se a busca terminar, é porque o que amei terminou, simplesmente acabou.
E agora o que fazer se não parecer ser.
Amei!
Trechos do livro - A Portuguesa, Astrolábio Editora 2021, Ricardo Ferreira
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