Acordei pensando que o passar do tempo, não sei para você que me lê, mas pelo menos para mim, tem sido como um leque de novas possibilidades. Elas podem parecer limitantes, mas, se bem observadas, são na realidade fachos de luz que penetram pelas frestas da consciência e se expandem em minha mente. Esse processo altera minhas emoções, muitas delas antes condicionadas a uma tolerância desprovida de propósitos reais e produtivos.
Ontem, desisti de assistir ao Jornal Nacional e nem tentei qualquer outro. Por experiência, sabia de antemão que falariam dos mesmos assuntos noticiados ao longo do dia. Reconheço que, devido à busca pela sobrevivência da maioria, o conteúdo provavelmente seria inédito para muitos, embora, se analisado friamente, nada mais seja novidade.
Drogas, feminicídios, crimes de guerra, aumento do preço da gasolina e o consequente aumento de "tudo mais". As paranoias de Donald Trump, políticos voltando a mostrar as caras por ser ano eleitoral (com a mesma conversinha programada de sempre) e a atuação dos ministros do STF que, como deuses indicados pela astúcia e má-fé, são pautas recorrentes. É um mundo chato, uma repetição massificante e uma forma midiática de padronizar comportamentos, valores e produtos, diminuindo a nossa individualidade.
Penso na minha infância e na gratidão que sempre inundou minhas emoções. Afinal, foi-me oferecida a diversidade da natureza, opção sagrada onde pude me abrigar quando o feio, o truculento e o inóspito invadiam meus instantes de vida.
Então pondero: não serei eu, mal-acostumada a ter para onde correr com segurança, que ao envelhecer fico cada dia mais ranzinza e sem paciência?
Vou constatando o fim dos meus tempos com a certeza de que nada poderei fazer em relação a essa parafernália sistêmica das convivências. Tento, assim, evitar um sentido mais aguçado de estresse, que agrava a solidão existencial que teima em se infiltrar na velhice.
Provavelmente. Se bem que a concorrência neste quesito anda desgovernada entre crianças e adolescentes. Seria efeito colateral da convivência com pais, professores e amiguinhos, sem esquecer as telas dos celulares?
Sei lá... Essa dúvida, assim como se o homem pisou na lua em 1969 (algo que voltaram a questionar mundo afora), confesso que não me incomoda em nada. Não precisei envelhecer para compreender que a natureza humana, obra divina, sofreu sérias avarias em sua concepção em alguns aspectos. Portanto, concluí que não seria eu a destinada a consertá-la.
E aí, abusada como sempre, foquei no melhor que pude extrair desta delícia que também sabem ser certos humanos.
Bom demais da conta, sô!
Regina Carvalho-14.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração-IA

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