Antes que me chamem de desbocada, o que não seria um erro, deixo claro que sempre apreciei a picância de um palavrão. Há momentos em que uma única palavra indevida resume tudo o que sinto, seja na alegria ou no caos.
Escrevo sobre a minha geração. Olhando para trás, constato que só esse palavrão sintetiza o que fomos: algo incrível, impressionante e de altíssima voltagem.
Fomos a geração onde os homens finalmente perderam o medo de expor a alma poética na música e na literatura. Enquanto isso, as mulheres rasgavam mordaças e quebravam correntes. Não pediam licença, buscavam liberdade.
Eu, apaixonada pela vida, deixei que meus sentidos fossem redes de pescador, trazendo para minha praia emocional as belezas e as pedradas do caminho. Precisei de muitas quedas para compreender, neste meu outono, que fui foda. Fui, porque persegui minha liberdade com a altivez de quem não negocia a própria essência.
Sem falsa modéstia, minha geração veio para revolucionar. Ganhando ou perdendo, usamos o corpo e a alma para criar os espelhos que, até hoje, refletem as luzes das grandes mudanças. Éramos uma juventude abusada, crente de que versos e prosas venceriam a rigidez de uma sociedade encrustada na hipocrisia.
Muitos se perderam no caminho. Outros deitaram na fama de suas antigas criações e hoje, para meu pesar, vejo a maioria rendida, contaminada pelo exato vírus que juraram combater.
Mas eu sigo pensando livre. Sigo afrontando. Minha capacidade de expor ideias e ideais, mesmo com receio, afugenta a hipocrisia que insiste em me rondar. Olho a neblina espessa, respiro fundo e assino embaixo: nossa história ficará registrada como fodaça. Falhas no percurso e retrocessos alheios não mudam o fato principal. De braços cruzados é que não ficamos.
Regina Carvalho | 13.04.2026
Ilustração IA

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