quinta-feira, 9 de abril de 2026

EU PASSARINHO...

Em madrugadas como a de hoje, em que meu sono foi interrompido por uma gata linda, mas teimosa e chata, que arranhava a porta do quarto incessantemente querendo entrar, o que para mim seria impraticável, levantei-me aborrecida. Vencida, mas certa de que dormir na companhia de animais não faz parte das atenções que devo oferecer, não cedi à sua insistência.

Depois de tomar o meu pingado, sentei-me diante do notebook para passar o tempo nas redes sociais, já que escrever meu texto diário parecia impossível. Todavia, a noite mal dormida deixou sua marca de enfado e, ao mesmo tempo, abriu uma incrível janela. Por ela, deixei-me enxergar, sem qualquer sabotagem ou covardia, a minha realidade no aqui e agora. Tudo isso porque, mesmo negando, eu pensava: "O que os outros vão pensar?".


Constatar esta realidade sem véus e culpas, impulsionada por uma gata chata, fez desfilar em minha mente todos os demais chatos, para não ser grosseira com outros adjetivos que, diante de tantos "não me toques" sociais, poderiam até me acarretar problemas. 

Na realidade, só o fato de identificá-los já me tira um peso enorme e me liberta. Afinal, se polidamente os suportei e deles me afastei, permiti até este instante que suas lembranças permanecessem, reforçando que eu continuasse agindo da mesma forma. Pois a "Regininha" tinha que ser a menininha educada, obediente, quase perfeita, sem rusgas nos vestidinhos bordados de cambraia de linho e sem arranhões nos bicos dos sapatinhos de verniz de imaculada alvura.

Enquanto escrevo sobre a minha rigorosa educação doméstica da década de cinquenta, deixo rolar algumas descontroladas lágrimas. É um misto de gratidão por tudo o que recebi de bom e, ao mesmo tempo, pela percepção de como essa fartura de ensinamentos e aconchegos sufocou a menina que nasceu livre e pronta para voar. 

Foram tantas as atenções que se esqueceram de deixar espaço para que eu pudesse alçar voos. Restaram-me as frestas por onde eu admirava, invejando os raros pássaros que me abasteciam de ideias e ideais que, em sua maioria, nunca experimentei.

Hoje, enxergando o ponto final deste rico trajeto, onde emoções e incômodos não faltaram, percebo com alívio que nada mais importa além daquilo que preserva a minha serenidade. 

Penso que aos insensíveis, tolos ou maldosos, respondo com absoluta consciência e com a minha poética visão da vida, tal qual Mário Quintana: "Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!".

OBS: Finalmente a gata se calou. Ao ir dormir, deixei a ração e a água, mas me esqueci do leite. Que coisa, viu!

Regina Carvalho – 09/04/2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração -IA

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