quarta-feira, 28 de outubro de 2026

FRANZ KAFKA E EU

Acordei elétrica nesta manhã de quarta-feira, pensando em tudo o que vem acontecendo na política do meu Brasil, sem adentrar na mundial. Foi-me impossível não lembrar que, de tantos livros clássicos que já li, o de Franz Kafka provavelmente tenha sido o que menos, a princípio, entendi. Por ser, na época, apenas uma adolescente, mas por insistência e entendimentos repassados por Roberto, voltei a lê-lo em várias outras ocasiões, até que comecei a compreender o cerne precioso de suas mensagens.


Enquanto isso, debrucei-me também em outros autores que me instigaram a buscar maiores entendimentos em relação às emoções humanas e seus efeitos nos relacionamentos, além de intermediá-los com as grandes obras poéticas que adoçavam a minha mente. Tudo isso sob o auspício também dele, sempre preocupado em instruir-me um pouco mais. Já que, desde o início do nosso namoro, ele foi, antes de tudo, um precioso amigo, não há nada a estranhar que só a morte foi capaz de nos separar. Portanto, através dele, com quem dividi quase toda a minha vida, fui capaz de ir descobrindo a existência em seus múltiplos aspectos, focando minha atenção no ser humano, em suas ações e reações, e em como elas se refletiam no todo à sua volta, com o consequente efeito numa visão mais ampla do início dos desvios existenciais acarretadores das dores do mundo.

Sua chegada em minha vida, quando eu tinha apenas 16 anos, levou-me a alicerçar, lenta e gradativamente, o dom de escrevinhadora que, mesmo sem eu ter consciência, fazia de mim uma cronista nata do cotidiano. Daí, anos depois, dedicar-me quase que exclusivamente a manter vivo em mim o prazer da observação dos movimentos sociais foi absolutamente natural, ampliando consideravelmente a minha visão crítica, isenta genuinamente dos achismos de massa ou das influências midiáticas.

Voltando a Kafka e à sua obra A Metamorfose, creio com convicção tratar-se de um precioso alerta em relação ao perigo da rejeição a quem pensa diferente, limitando o indivíduo pela falta de senso crítico e de ampliação de uma visão de mundo que seja minimamente universal. E é exatamente o que é possível constatar, sem panos de disfarce, em cada metro quadrado da vida contemporânea em nosso país e no mundo.

Então, registrei meus entendimentos em vários livros. Há três anos, pensando nisso, resolvi escrever para as crianças sobre detalhes fundamentais e necessários para que elas possam crescer com respeito a si e aos demais, crendo ser o caminho único para poder-se pensar em alterar as sempre crescentes distorções pessoais e sociais. 

Ainda neste ano, se tudo correr bem, editarei, graças ao carinho, generosidade e comum entendimento da amiga Cida Paglarin, o meu quarto livro infantil, intitulado A Capa Mágica da Ética. Nele, abordo temas como ética e coerência numa linguagem acessível para os pequenos, por acreditar que é através da primeira infância que se torna possível integrá-las, com efeitos para uma vida inteira, à importância da harmonia nos relacionamentos a partir de suas próprias atitudes.

Conhecer limites não é se privar de qualquer liberdade, mas entender que ela é um direito de todos e que o respeito a qualquer natureza começa por si mesmo.

Simples assim.

Bom dia, desejando a você um dia de paz e para tudo o mais com que venha a conviver.

Regina Carvalho – 28.10.2026  Pedras Grandes, SC.

Ilustração IA

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