quarta-feira, 7 de outubro de 2026

APENAS UMA VIDA

Acordei pensando em 1950, quando tudo começou para mim. A curiosidade, como sempre, foi mais forte do que eu e imediatamente fui pesquisar, em busca de entendimentos consistentemente oficiais sobre o desenvolvimento real que houve no meu Brasil varonil. 

Decidi fazer isso ao invés de continuar ouvindo e aceitando apenas narrativas políticas, já que elas, por intuição e constatação, não me convencem. Afinal, o cotidiano sempre apresentou outro cenário nos diversos locais onde residi, estudei e trabalhei.


Antes deste texto, fiz questão de publicar o resumo que recolhi através de algumas fontes confiáveis. Espero que ele seja lido e que possa também esclarecer os entendimentos de meus seguidores, caso tenham as mesmas dúvidas que eu. 

Tais dados, valem mesmo para quem jamais tenha sentido fome ou tenha sido privado de boas escolas e de uma família minimamente estruturada dentro dos moldes tradicionais. Pelo menos para mim, sempre foi muito difícil mensurar essa dor, já que somente através de leituras e filmes conheci a falta destes direitos fundamentais que, por uma questão de lógica, nunca deveriam faltar a qualquer ser humano.

Pessoalmente, por ter nascido em uma cidade e bairro de primeiríssima em se tratando de qualidade de vida, apenas havia conhecido um tipo de pobreza: aquela que servia nas residências e comércios e que, em sua maioria, morava nas periferias. Tudo mudou até que fui morar no Nordeste e passei a fazer política, precisando percorrer becos e ladeiras. Foi quando constatei in loco a imensa diferença de classes, acrescida de preconceitos explícitos, até então apenas conhecidos nas teorias ou em um hábito que, de tão corriqueiro e separatista, mantinha a aparência de normalidade.

Hoje, pensando nisso, creio que só conheci a realidade com bem mais da metade da previsão de minha vida. Vivi até então em uma bolha repleta de narrativas, informações tendenciosas e de minha própria realidade, onde nada havia faltado. 

Conhecer olho no olho o olhar da fome de uma mulher que remexia um vergonhoso lixão, que existia próximo à praia de Ponta de Areia, e depois adentrar em um casebre de chão batido e cheirando a fezes de um esgoto que, vez por outra, transbordava e o invadia no Bom Despacho, fez-me acordar para uma realidade tão brutal que ainda hoje me emociono só de lembrar.

Lembrando disso tudo, sinto vergonha por ter considerado e oferecido o meu respeito a uma infinidade de políticos, ditas autoridades. Eles são algozes cruéis que, podendo verdadeiramente acabar com estas vergonhas, preferiram engrossar seus poderes econômicos, polarizando as opiniões, dividindo a lógica do bem comum em fatias desumanamente cruéis e ainda posando de justos e honestos. Além disso, arrastaram a seu favor os interesseiros, neófitos e páreas, todos, sem exceção, apenas safados, ingênuos ou marginalizados sociais.

Penso então na escrita de Castro Alves em seu poema Vozes d’África, de 1868:

"Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?..."

Regina Carvalho — 7.10.2026 — Pedras Grandes, SC

Ilustração- IA

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