Minha mãe já afirmava que eu era abusada, atrevida e respondona e, certamente, ela tinha razão. Afinal, os meus insistentes porquês deveriam aborrecê-la demais. Se bem que este meu jeito de ser não fora roubado, já que ela mesma a tudo questionava e meu pai então, cruz credo!
Tudo isso numa época em que a mulher, em sua maioria, só obedecia e o homem seguia o padrão machista de ter a sua razão absoluta. Pois é... Portanto, como eu poderia ser diferente, não é mesmo? E não fui, e aí não reside qualquer mérito maior sobre os demais. Apenas percebi, desde muito cedo, que a vida era incrivelmente perfeita e única, portanto, a minha também deveria ser. Para tanto, as minhas escolhas deveriam seguir o mesmo padrão de"qualidade" e de "intransferibilidade" .
Todavia, ao contrário do que se possa imaginar, meus valores eram totalmente ligados à sensibilidade espiritual, ficando o material com sua devida importância de sustentabilidade, sem que este, em momento algum, servisse de referência obrigatória. E aí, puxa vida, encontrei fantásticas esmeraldas e diamantes ao longo deste meu garimpo de vida e fiz de cada uma adornos preciosos e fontes de prazeres inenarráveis, justo por serem um misto de delícia e satisfação.
Compreendi desde muito cedo que a cama e a mesa deveriam caminhar juntas: uma porque me aquecia e a outra porque me alimentava. E aí, meu Deus, quanto amor reservei em mim!
Afinal, enquanto uns acumulavam coisas (e eu, em certos momentos, também o fiz), lá estava a Regininha juntando emoções e sentimentos no baú das reservas de preciosas emoções. Para tanto, quando percebia valer a pena, não media esforços quanto aos meus investimentos. Afinal, minha mãe também afirmava que, quando eu queria verdadeiramente algo por considerar valioso, não desistia jamais...
Provavelmente esta tenha sido a razão de ter conseguido tudo de bom e inalienável que esta vida incrível podia ofertar, como o amor, a fraternidade e a alegria. Com certeza sou convencida e vaidosa, e quem não o seria se, aos setenta e seis anos, ainda sou capaz de amar e me sentir amada?
Que neste domingo de primavera os seus valiosos quereres sejam despertados e que a cama e a mesa sejam as suas referências.
Regina Carvalho — 11.10.2026 — Pedras Grandes, SC
Ilustração-IA
Nenhum comentário:
Postar um comentário