terça-feira, 29 de setembro de 2026

QUEM CANTA, SEUS MALES ESPANTA...

Penso que cantar ou se envolver com a música tem o poder de aliviar a tristeza, o estresse e as dificuldades da vida. Essa afirmativa é verdadeiramente comprovada pela ciência; portanto, mesmo desconhecendo seus poderes terapêuticos, minha família exercia diariamente o hábito de ouvir músicas. Assim, durante minha vida, estivesse fazendo o que fosse, lá estava a música como fundo musical de minhas emoções.

Ainda me lembro de minha vó Regina, mãe de meu pai, cantando bem baixinho enquanto preparava as refeições, assim como minha mãe, incansável ouvinte dos mais variados estilos musicais, que, com sua presença ativa, cuidava de tudo e, principalmente, de todos nós.


Hoje, pensando nelas, sou capaz de mensurar o quanto extravasavam através da música suas ideias e ideais, numa época em que a mulher era limitada em seus direitos mais básicos. Ao mesmo tempo, pelo menos no meu caso, nunca as vi reclamando ou sofrendo; muito pelo contrário, exerciam a força motriz de seus lares. Essa era mais que uma expressão, pois se explicitava através da dedicação amorosa de quem conhecia o seu papel agregador e conciliador, transformando paredes, ricas ou pobres, em abrigos seguros.

Mais tarde conheci poetas e pensadores e, através deles, ampliei o meu entendimento em relação à música e seus efeitos. Então, curiosa e extremamente observadora, fui percebendo o quanto o mundo mudou influenciado pela força da arte, dividindo as posturas humanas em fases de profundas e significativas mudanças.

Pensando nisso e lembrando de minhas leituras sobre o filósofo Platão, percebo que ele compreendeu o poder que a música exercia nas pessoas e estas no seu local de vivência, e o quanto os poderosos usam dela para manipular o povo. Platão acreditava que a música tinha um poder ético e político, capaz de moldar diretamente o caráter, as emoções humanas e, consequentemente, as almas.

O filósofo defendia que o ritmo e a harmonia penetram no íntimo da alma, conferindo-lhe ordem e virtude (como a coragem e a temperança) ou, se fosse uma música inadequada, conduzindo ao desregramento e à fraqueza, o que inclui a inércia, a alienação e a luxúria.

Em sua obra “A República”, ele argumenta que as leis da música não podem mudar sem que se alterem também as leis fundamentais da cidade. Para ele, é possível conhecer o estado moral de um povo observando as melodias que ele consome.

E aí, esquecendo o mundo e centrando-me em meu Brasil varonil, como seria possível não perceber o uso abusivo das músicas ditas modernas nas alterações morais e éticas do povo?

É com profunda tristeza que assisti, neste domingo, da poltrona de minha casa, ao espetáculo deprimente do soterramento do delicioso romantismo e das maravilhas sexuais que as atrações entre um homem e uma mulher proporcionam. Um espetáculo bem ao gosto de uma plateia viciada no mau gosto do atropelo explícito do belo, privilegiando o vulgar imediatismo que os ritmos eróticos imprimem abusivamente nos relacionamentos. Nele, a mulher transformou-se em um pedaço de carne, substituindo sentimentos por atributos físicos( peitos e bundas) a serviço da erotização consumista, e ainda sendo chamada de cachorra, sob os aplausos de mulheres que, ao mesmo tempo, gritam por respeito, mas aceitam e ajudam a soterrar, em nome de uma modernidade medíocre e num abuso à arte, a possibilidade da experiência exitosa de uma relação verdadeiramente apaixonante, onde tudo a dois é permitido se houver respeito mútuo.

Penso, então, que esta é a mesma plateia que irá votar no próximo dia 4 de outubro...

Que Deus interceda e nos abençoe.

Regina Carvalho- 29.9.2026 Pedras Grandes SC

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