Quase seis e meia desta manhã de quase primavera e lá fora a neblina está tão espessa que sequer posso enxergar o céu, cujo azul intenso sempre me encantou. Essa ausência momentânea da luz me faz refletir sobre as cores da vida. Então, fecho os olhos e o imagino, assim sou capaz de manter a esperança de vê-lo luminoso, trazendo consigo o bendito sol que aquece.
Percebo, deixando um sorriso aflorar em meu rosto, que, afinal, este procedimento mental sempre esteve como ação corriqueira em minha vida, se não facilitando-a, com certeza mantendo viva a esperança, num incansável positivismo que se refletiu interiormente, mantendo atuante o amor que fez de mim uma saudável criaturinha humana que só deu sinais de que a máquina física precisava de reparos aos sessenta e cinco anos.
Sinto que a gratidão por essa saúde é o que me move. Até então, desconhecia totalmente os comuns perrengues possíveis de constatar em outras pessoas que me cercavam.
Por outro lado, preciso confessar que enquanto o corpo atuava sem precisar de reparos, a mente sempre apressada vivia em constante maratona, já que não encontrava no corpo correspondente adequado. Era um descompasso sutil entre a urgência do pensamento e a calma da matéria.
Em certo momento, e foi na adorável Itaparica, caminhando disciplinarmente a cada amanhecer e, em seguida, banhando-me nas águas mansas e mornas daquele mar inigualável em beleza e paz, que só então, deu-se o milagre do aprendizado do compasso ritmado entre ambos, podendo assim desfrutar dos carinhos delicados das marolas, na mais completa harmonia.
A natureza ali operou uma verdadeira cura na minha alma.Eu queria tanto penetrar neste mundo cantado e declamado da paz, e tê-la adentrado certamente surpreendeu a mim e aos demais, afinal, quanto mais o mundo enlouquecia promovendo mudanças de paradigmas das posturas, lá estava eu bem de mansinho, apreciando sem me envolver, além do que o meu sentido de amor e lealdade assim determinasse, até mesmo mantendo-me, em certas ocasiões, arredia e mesmo distante.
Essa distância necessária tornou-se o meu casulo protetor.Descobri em mim com clareza absoluta que sempre fui uma devota da paixão e, através dela, naveguei em mares nem sempre tranquilos e que, por não ter naufragado, fortifiquei-me a ponto de conseguir harmonizar minha mente a ponto de equilibrá-la, apenas deixando o amor comandá-la sem pressa.
Afinal, a calmaria sempre vem após a tempestade.E aí, o tudo de bom começou a acontecer como uma pequena e consistente queda d’água, tal qual a que desabava sem pressa, mas ininterrupta no riacho de Guapimirim em minha fantástica infância. Aquelas águas antigas ainda banham minhas melhores recordações.
Portanto, se olho e a neblina não me deixa ainda enxergar o céu, recorro à minha adorável mente, que a expõe despudoradamente, fazendo meu corpo rejuvenescer a cada sinal de vida plena que me induz a seguir confiante, levando comigo a sempre apaixonada certeza que um dia fez brilhar mais intensamente os meus olhos e aí, espero que o sol em algum momento surgirá, banhando-me de amor.
Simples assim.
Regina Carvalho, Pedras Grandes, SC. 8.9. 2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA
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