Neste amanhecer, como em tantos outros, acordei absolutamente apaixonada por mim. Olhei-me no espelho enquanto escovava os dentes e senti um enorme orgulho da jovem, da mulher madura e da senhorinha que me tornei. Curvei-me para enxaguar a boca e lavar o rosto e senti a água fria despertar-me totalmente e, por conseguinte, sorri admirando-me encantada.
Que vida, hein, dona Regina?! Que show de desenvoltura e criatividade, aliada à sempre presente paixão pela vida e à sem tamanho fidelidade aos meus familiares e amigos.
Carrego um baú enorme de lembranças que fui acumulando sem discriminação, colocando em cada uma delas o descomunal colorido que sempre me pareceu o das floradas dos ipês. Ao chegarem a cada ano, eles trazem uma luz especial, um milagre que renovava em mim a certeza de que tudo estava valendo ser vivido, jamais permitindo que pessoas ou situações cotidianas nublassem a minha determinação em ser feliz.
Então, como não me achar uma das flores que em certo dia, ainda criança, catei entre milhares de outras no chão e alisei admirada, desejando ardentemente parecer-me com ela, que, mesmo murcha, salpicava o chão de vida ao ponto de me atrair?
Coincidência ou não, quase tudo de relevante me aconteceu nos meses das floradas dos ipês de forma surpreendentemente rápida e fascinante. Portanto, como me seria possível não ser como eles e me entregar de corpo, alma e coração à vida, sem pensar no tempo de duração do bendito espetáculo que é o de me sentir felicíssima? É assim que me sinto neste amanhecer em que, a despeito de qualquer censura, sou ridicularmente apaixonada pela mulher bonita, cheirosa e extremamente forte que ainda sou.
E aí, penso também enquanto enxugo o rosto e pisco diante do espelho para esta senhora absolutamente alegre e vigorosa, que, para se amar a vida e tudo que nela existe, mantendo um olhar e disposição para o que der e vier, amar a si próprio e se reconhecer pertencente a este fantástico espetáculo, vale tudo, inclusive sobreviver às dolorosas pedras que, vez por outra, há sempre de existir pelo caminho.
Regina Carvalho- 29.8. 2026 Pedras Grandes SC
Ilustração-IA
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