sexta-feira, 14 de agosto de 2026

EU QUERIA TER SIDO...

De repente, neste amanhecer a inveja me dominou. Afinal, enxergo e sinto tão profundamente a vida, por que, então, não consigo ser poeta? Durante toda a minha vida, fui agraciada com leituras simplesmente magníficas de poetas renomados, numa tentativa primeira de encantar ainda mais a minha mente e a minha alma, mas também para aprender a sê-lo. Qual nada. E olha que tentei ardorosamente, mas a rudeza das realidades que também enxergava serpenteando as belezas não podia ser esquecida. Então, lá estava eu navegando nas águas revoltas das emoções controversas, justo aquelas que a maioria sequer deseja encontrar, ainda mais de forma tão explícita numa poesia. 


Deixei de lado por algum tempo os poetas e migrei para os cronistas. Aí, identifiquei-me de imediato e nunca mais parei de lê-los. De repente, vi-me detalhando os cotidianos e as pessoas sem me preocupar em colori-las para camuflar suas falhas humanas, até porque percebi tratar-se de ações e reações bem mais comuns do que se podia imaginar.

 Novamente, uma luz de esclarecimento me dominou, levando-me a crer que os poetas existem justo para disfarçar as imperfeições humanas, os movimentos das placas tectônicas e desenhando com palavras a erotização das relações de qualquer natureza, forma suportavelmente doída de enxergar as realidades.

 Será que sou mais uma insuportável criatura que precisa se rasgar e com o sangue da incompreensão do absurdo de não se sentir mais um espetáculo da criação, escrever, mesmo sabendo que nada mudará, sem qualquer peneira no brilho do sol sobre os girassóis? Será que estou sendo muito radical ou tão somente no auge da minha inveja que se mescla a um cansaço enorme, absolutamente presente quando o caminho percorrido é longo e sem pudores, como o fazia Nelson Rodrigues ou Rubem Alves, deixo fluir o desencanto por não conseguir dourar as pílulas de um suposto consolo? 

Tarde demais para continuar tentando ser uma poetisa, mas ainda cedo o bastante para sorrindo receber esta sexta-feira bem mais bela com a chegada de meu Marcelinho, netinho amado na tarde de ontem. 

Deduzo, então, que se não consegui escrever poesias deixando o mel da minha paixão deslizar sobre os espinhos das rosas e dos cactos que fui encontrando pela vida, pelo menos fiz deles crônicas poéticas, onde o amor imperfeito foi aceito e reverenciado, fazendo nascerem estrofes de um dia a dia repleto de reais e apaixonantes emoções. 

Regina Carvalho, 14 de agosto de 2026 Pedras Grandes - SC.

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