Neste sábado escrevo sobre a constatação das vezes em que fui conscientemente ridícula, contrariando toda uma educação na qual conter as emoções era fundamental.
Todavia, a forma que me moldou tinha pequenas rachaduras por onde escapuliu a obediência emocional. Aí, vez por outra ao longo da vida, as emoções me dominavam e não havia absolutamente nada que fosse capaz de contê-las.
Como no dia em que conheci o meu Tiãozinho, em que, explodindo de emoção, adentrei em casa gritando: Mãe, acabei de conhecer o meu futuro marido! Ela apenas respondeu sorrindo: E ele sabe disso? Ainda precisei de dois dias ouvindo suas piadinhas até que, finalmente, ele apareceu e nunca mais nos separamos.
Essa explosão de certezas sempre foi maior que eu, assim como quando passei na UFRB aos sessenta anos para cursar filosofia, meu sonho dourado, e em outros tantos momentos que coroaram a minha existência, reafirmando o fato de que verdadeiramente eu nascera com o bumbum virado pro céu.
Há poucos dias, escrevi que não devemos correr atrás de absolutamente nada, pois o que nos pertence com certeza nos acha. Agora, se vamos enxergar e apanhar para nós, são outros quinhentos. Por isso, sempre estive atenta e, mesmo tendo uma miopia galopante, jamais deixei de enxergar como uma águia, compensando os olhos com os meus demais sentidos que, apuradíssimos, jamais deixaram passar uma só oportunidade que fosse exitosa para mim.
Agora escrevo sobre este assunto delicado que geralmente as pessoas sequer gostam de mencionar sobre si, optando, no entanto, por condenar seus semelhantes, tendo na ponta da língua: Nossa, como fulana é ridícula! Exagero ou minto?
Pois é... O melhor de tudo é que jamais me importei com o julgamento alheio, afinal, ele não poderia ser mais poderoso que a satisfação que eu estava sentindo. Talvez por isso eu possa falar e escrever a respeito sem vergonhas e traumas. E ainda olhar no espelho e verificar a leveza de minha tez, mesmo aos setenta e sete anos, assim como ridicularmente ainda me vanglorio cognitivamente das paqueras com as quais ainda alimento o meu ego.
Pensando a respeito, rapaz, devo ter sido uma piada em alguns momentos, principalmente para os contidos e educados, mas e daí? Será que em suas vidas foram capazes de sentir aquele orgasmo que, de tão poderoso, é capaz de energizar dos pés à cabeça, elevando-as aos pícaros da realização pessoal, seja na cama com o suposto amor, seja no fogão cozinhando para a família? Ou mesmo jamais ter se esquecido do quanto o primeiro beijo e a primeira emoção sexual foram capazes de moldar alegria, amor à vida e, principalmente, a contínua sensação de gratidão de apenas se sentir existindo?
Hoje entendo que jamais precisei de coisa alguma para amar e ser amada. Minha mais rica compensação era estar ao lado dos brindes que a vida generosa me oferecia, já que por intuição sentia que, quando estamos felizes no cumprimento de nossos propósitos, o que nos pertence sempre nos acha.
Eu poderia passar a manhã inteira enumerando os meus ridículos, no entanto, basta-me lembrar que existiram e que em cada um deles, meu Deus, como fui feliz!
Regina Carvalho- 15.8.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA
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