Na realidade, já não acho mais nada em relação ao que for, além do que sinto. E ultimamente tenho sentido tanto que, de certa forma, me anestesiei para continuar vivendo sem Anafranil, Lexotan ou outras coisas más.
Desenvolvi uma terapia pessoal que me permite continuar esperando, consciente ou não, como qualquer ser humano, a morte chegar. Para não sofrer em demasia o terror do enfrentamento do fim, entretenho-me como qualquer outro, aliviando a ameaça subjetiva das incógnitas: quando será, como será.
Isso é assunto para o amanhecer de um domingo de Ramos, Regininha. E por que não? Já que, enquanto me questiono e me justifico, milhares de pessoas morrem de morte morrida ou matada.
Penso que existir é bom demais, pelo menos para mim, que me fiz artista das letras para ter o que me distraísse e, assim, não enlouquecer com a parafernália das regras sociais, políticas e religiosas impostas a favor da conveniente convivência. Dizem que precisa ser chique e supostamente harmoniosa, mas o que sempre se viu foi cada qual se revezando nas berlindas ou nas plateias dos convívios locais, regionais ou mundiais, a fim de se impor ou se defender dos demais.
Penso também no quanto é gratificante surfar pela vida sem mágoas profundas, sem revoltas sufocantes e geradoras de conflitos internos e externos. Para mim, incontestável é o sentimento doloroso de que nada posso mudar. Portanto, de que me adiantaria achar isso ou aquilo em relação a este ou aquele fato, transformando a tão idealizada paz em um combate lúdico e romanceado, sem jamais sentir de verdade o seu gosto, nem de perda e muito menos de vitória.
Numa decisão egoisticamente pessoal, sequer teço ilações sobre o amanhã ou mesmo sobre o daqui a pouco. O instante presente é e será sempre real e absolutamente imutável.
Um aroma diferente me breca e me induz a inspirar profundamente, assim como uma brisa refrescante que caminha invisível por metros a fio apenas para me arrepiar. O farfalhar das folhagens insiste ora em me acordar, ora em embalar meu sono.
Uma palavra, um sorriso, um toque, um beijo, um abraço e um sabor permanecem tecendo criações em minha mente. Colocam em letras as vibrações que me atravessam e me envolvem na manta invisível do reconhecimento imediato do êxtase continuado. São instantes supremos de abastecimento energético que me capacitam a acreditar que haverá outros. Além de abastecer meu baú de experiências, vivo o aqui e o agora no mais alucinante prazer.
Regininha pata choca acomodada, que em certo dia foi apresentada à vida e por ela se apaixonou. Tudo, como sempre, num só olhar, deixando-se alisar, curtindo cada instante, fazendo da vida sua preciosa inspiração. Compreendendo que, no instante seguinte, se este existir, só caberá o que estiver desejando e sentindo sob os auspícios da esperança de vir a ter mais outro e outro, fingindo-se eterna.
E aí, a troco de quê eu perderia esse limitado tempo e essa expectativa lúdica, resgatando fatos e emoções já mortos e sepultados?
Na maior cara de pau e sem qualquer indício de remorso, percebo tudo, mas não acho mais nada que não caiba em meu instante presente. Com ele, no mínimo, posso evitar, contribuir ou modificar. Sem opção, acabei me apaixonando e me envolvendo sem limites com a minha própria vida, tornando-me lucidamente alienada, só querendo gozar das carícias do existir, já que não sei até quando as terei.
E assim, o bom se torna ótimo e o ruim apenas suportável. Enquanto isso, os instantes seguintes fluem e eu apenas vivo muito, mesmo estando na fila invisível à espera do fim.
E eu lá vou perder um instante que seja, achando isso ou aquilo como fiz em grande parte da minha vida, apenas para que me achem participativa, engajada e fodona?
Meu orgasmo é ser feliz.
Regina Carvalho – 29.3.2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração IA

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