São quatro horas de uma tarde de final de verão, nublada, mas absurdamente quente, prometendo uma chuva que há vários dias ameaça, mas não cai.
Enquanto isso, movida pela despedida de mais um verão de minha vida, aproveito para despedir-me do que até então, por motivos diversos, fui deixando ficar e que me incomoda por demais.
Despedir-me, com certeza, de uma acomodação que nutri a vida inteira, disfarçando-a com várias vestimentas a depender da ocasião. Apesar dos pesares, fui dividindo com ela uma Regininha que, moldada por uma educação tradicional, aprendeu a dizer "sim" pelo simples fato de ser mulher. Dela, mesmo que internamente esperneando, esperava-se abnegação, renúncia e um bom comportamento para não ferir, em demasia, as expectativas alheias.
Despedir-me do medo constante do abandono daqueles que me cercavam, crendo que beberia do próprio sangue em favor de cada um deles, afinal, outra lição recebida com exemplos domésticos e religiosos, mantendo-me grata e fiel.
Despedir-me das inseguranças em me sentir só, quando, nas avaliações menos rasas, descobria desolada a dura realidade: eu permanecia apreciando e sofrendo a sobrevivência dos demais, que a priori sobrepujava a minha. Só encontrava refúgio e abrigo nos inesperados desconhecidos que, talvez como eu, ainda acreditassem em uma tal solidariedade, fraternidade e o escambau.
Despedir-me do falso perdão que, ao demonstrá-lo elegantemente, golpeava minha autoestima, meus valores de origem e crença. Mostrava-me magnânima, enquanto o perverso carrasco permanecia segurando o troféu do escárnio.
Despedir-me do orgulho e da vaidade em acreditar que sou forte, resiliente e, assim, capaz de compreender e até formular análises sobre a minha incapacidade de admitir que há muito deixei de ser útil.
Despedir-me do convencimento do quanto merecia ter recebido mais ou pelo menos na mesma proporção em que ofereci. Finalmente constato a tolice de querer ser, por todo o tempo, a boa samaritana, mantendo a capanga abastecida para os indiferentes se alimentarem, garantindo assim o bilhete dos portais do céu.
Despedir-me do medo doentio de morrer e ir ter com o Diabo, enquanto saltava e me esquivava das labaredas de um inferno cotidiano, onde jamais houve um lugar seguro para todo aquele cujas intenções e ações estivessem envoltas em embalagens amorosas e verdadeiras, portanto, sem a proteção resistente das couraças das infinitas conveniências. Afinal, o inferno existencial desconhece o amor, a saudade e a gratidão.
Despedir-me de querer, finalmente, não entender que o mal é relativo e o bem, oportunista.
Despedir-me do tolo convencimento em ser capaz de convencer a mim mesma de que, por enxergar e sobreviver ao feio e ao mal jamais a eles me curvando, tornar-me-ia bonita aos olhos Divinos, merecendo como reconhecimento um lugarzinho no paraíso.
Neste momento em que dolorosamente despeço-me das sandices existenciais de hábitos e costumes, precisando rasgar as vísceras para deixá-los sair de mim, ainda encontro forças para alcançar as realidades sem lamentações, mantendo-me fiel apenas aos meus escritos, única porta que se manteve sempre aberta, por onde exponho o impossível que sempre busquei na humanidade. Acredito que só resistem os tolos que não temem lambuzar-se com os aromas, texturas e sabores do lúdico, transformando com letras e visões apaixonadas o óbvio do inferno das convivências em um irretocável paraíso, onde somente os poetas, esses "fracassados sistêmicos", são capazes de adentrar.
A noite chegou, um novo dia amanheceu e, em poucas horas, já não será mais verão. Mas tenazmente cá estou, finalizando o texto e me preparando para mais um outono de minha vida, carregando menos bagagem, sentindo-me bem mais leve e livre para, quem sabe, num futuro qualquer, merecer o tão prometido bendito céu.
Regina Carvalho- 20.3.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA

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