Fazia tempo que eu não pensava nessa expressão. Talvez porque, há muito também, essa reação intempestiva tenha desaparecido de meus hábitos emocionais.
Quando menina, poderiam me chamar de birrenta. Na adolescência, de pittizeira. Já na vida adulta, de temperamental. No fundo, pouco importa o nome. Qualquer que seja ele, trata-se sempre de um descontrole capaz de causar danos profundos ao corpo físico que, por mais forte e resistente que seja, acaba, vez por outra, deixando escapar o pus de suas feridas internas através de chagas que, se não são visíveis, certamente são sentidas.
Por outro lado, quando a raiva, o ódio e as frustrações não são expressos, permanecem incubados dentro de nós, causando estragos da mesma proporção. Chego então à velha conclusão popular: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.
Cruz credo. Como é complexa a natureza humana.
E então surge a pergunta inevitável: o que fazer, se muitas vezes nos falta tempo até para uma refeição tranquila entre uma atividade e outra?
Como encontrar uma alternativa que acalme a mente, amanse as emoções e não envenene o corpo?
Na busca dessa solução milagrosa, experimentei de tudo um pouco. Ansiolíticos recomendados pela farmacologia, ginásticas, terapias, seminários e livros de autoajuda que prometiam verdadeiros mapas salvadores das Índias emocionais.
Quis o destino que, certo dia, caminhando pelas alamedas de meu sítio em Caeté, Minas Gerais, na companhia de Xuxinha e Buana, minhas inseparáveis pastoras alemãs, como fazia a cada amanhecer, eu conversasse com Deus em meio à rica vegetação.
Sentia-me cansada do peso das frustrações comigo mesma por ainda não ter encontrado a resposta para o meu desejo maior: descobrir a paz que eu sabia existir.
Foi então que Ele resolveu responder.
A resposta veio na forma de uma dor intensa em meu peito, fazendo-me lembrar de minha sogra no dia em que a socorri durante um ataque de angina.
Pensei imediatamente: será que morrerei aos quarenta e dois anos, sozinha, com meus cães, sem ninguém por perto que possa ao menos tentar me ajudar?
Não esperei resposta alguma.
Arrastei-me até o meio-fio sobre as pedras do calçamento, arranhando joelhos e cotovelos. Enquanto lutava para sobreviver, percebi algo fundamental. Eu me socorria justamente porque continuava viva. Respirava. Sentia-me viva. E naquele instante isso era tudo o que importava.
Cada movimento arfante e dolorido revelava a descarga de adrenalina que meu próprio corpo produzia. Foi então que compreendi algo simples e definitivo.
O Deus a quem eu pedia socorro estava dentro de mim.
Somente eu poderia interagir com Ele.
De repente, Deus, bendita tábua de salvação dos aflitos, representava também os recursos que habitavam minha própria mente. Como sempre fui esperta, apropriei-me deles. Não apenas para restabelecer o compasso mais tranquilo da respiração, mas para transformá-Lo, dali em diante, em meu parceiro inseparável.
Desde então, caminhamos juntos enfrentando a maldita força dos hábitos ruins ao longo dos últimos trinta e um anos.
Nada é mais difícil do que sermos responsáveis por nós mesmos e aprendermos, dia após dia, a viver com equilíbrio cada instante da existência.
Ataques de pelanca, nunca mais.
Quando muito, um silencioso foda-se interior. O hábito de ser desbocada esse preferi manter intacto, como uma valiosa válvula de escape.
Regina Carvalho
15.3.2026 -Pedras Grandes – SC
Ilustração IA

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