domingo, 29 de março de 2026

O FARNEL DA REGININHA

Acordei sorrindo, aliás, como sempre. Afinal, só consegui nesta vida o que busquei; e como quis e busquei o "tudo de bom" que me desse prazer, consegui. "Buscai e recebereis" (Mateus 7:7).

Diante desta constatação irrefutável, penso no quanto dediquei minha vida a querer apenas o que era bom, o que exigiu de mim o reconhecimento do real e o palpável, o lógico e o sensato para o meu bem-estar. Para isso, precisei ser exigente, detalhista e, acima de tudo, seletiva. Entendi, desde sempre, que precisaria ser fiel aos meus sentidos, geradores das minhas emoções; e estas, para desenvolverem sentimentos, precisavam estar em total acordo com a minha mente ativa.


Tornei-me, sem planejamento, mas com persistência, fiel e terrivelmente apaixonada pelo meu bem-estar. Isso também me transformou num "serzinho abestalhado" para todo esperto de plantão. O que nenhum deles desconfiou era que eu não estava nem aí para suas avaliações e más intenções; o que realmente me importava era o quanto a existência deles me causava de prazer.

Fui e sou capaz de lembrar mensurando e sorrindo de tudo quanto a maioria não suportaria em traições e abandonos. Para me enganarem, ou até de mim se afastarem, precisaram de grandes manobras, enquanto a Regininha os apreciava em seus esforços. Mesmo abalada com as truculências, eu ainda era capaz de sorrir e lamber os lábios, ainda molhados das lágrimas das partidas, dando graças a Deus pelo que não foi levado e pelo prazer empírico que haviam me proporcionado. Uma sensação maravilhosa e imensa, impressa em todo o meu ser, que indiferença alguma poderia apagar.

Assim, evitei alimentar sentimentos de raiva, ódio e inconformismo, ou culpar o outro por perdas e danos. Entendi, por intuição, que cada um só oferece o que genuinamente possui. Evitei tomar, em doses homeopáticas, os venenos cotidianos que, quando não matam o "tudo de bom" que existe em cada criatura, a aleijam, deixando tatuado um enorme e impreenchível vazio existencial, só suportável com a ingestão de qualquer "muleta" que o sistema oferece.

Tudo isso acontece pela falta da bendita coerência entre ação e reação. Baseada nessa premissa, penso em Jesus, meu mestre e guia, que em sua árdua caminhada terrena nos deixou o seu mais rico aprendizado: "Amai a teu Deus acima de tudo e a teu próximo como a ti mesmo". 

Mais claro que isso, só dois disso. 

Ao compreender que Deus estava nele, Jesus deduziu, por pura lógica, que ele era a bendita consciência, a medida e o peso de suas avaliações, incrível distinção que o diferenciava dos demais seres vivos.

Portanto, ao estudar a vida sistêmica sem doutorados ou títulos, mas com o desejo de compreender o que fizera daquele andarilho o maior influenciador da humanidade, concluí fascinada: Jesus, ao observar os hábitos, costumes e a Tora, encontrou as mais dolorosas contradições que justificavam as hipocrisias e os conflitos eternos. Afinal, se a criatura não se reconhece e não se privilegia como a maior criação divina, como haverá de valorizar o resto? Nada faz sentido entre o lido e o praticado sem essa lógica.

Deduzi, então, que ao deixar meu Deus pessoal cuidar do meu bem-estar, promovendo rigor e fidelidade ao que é bom e justo para que eu me regozijasse, automaticamente desejei o mesmo ao meu semelhante.

 Respeito e deixo que cada um seja o que desejar ser, plantando e colhendo seu próprio farnel, já que semear e colher frutos saudáveis para o próprio deguste deveria ser, em qualquer circunstância, a prioridade de quem pensa e, logo, existe -Descartes.

Simples assim...

Regina Carvalho

28 de março de 2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração IA

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