Existem amanheceres, como o de hoje, em que o frio não vem apenas do clima, mas do coração. O corpo desperta, mas a alma ainda hesita em levantar-se. Entre cobertas e pensamentos dispersos, a inspiração se perde, restando apenas a sensação de tempo desperdiçado.
São nesses momentos que o medo surge como sombra não o medo das coisas grandiosas, mas aquele sussurro que me trava: o de não ser capaz, o de não pertencer, o de falhar. Ainda assim, levanto. Reconheço: estou pra pouca conversa.
Vivemos tempos em que o medo é quase sempre silenciado, disfarçado por coisas que brilham e seduzem: comprimidos coloridos, rótulos clínicos e diagnósticos rápidos.
Já passei por tudo isso, até que decidi virar o jogo. O desconforto, que deveria ensinar-me; o vazio, que deveria provocar perguntas; a ansiedade, que poderia abrir caminhos de autoconhecimento, tudo estava reduzido a um código médico. A vida, que deveria ser enfrentada, passou a ser anestesiada.
Afinal, eu tinha conseguido tudo, mas ainda assim a Regina real se escondia entre diagnósticos e as névoas de pílulas anestesiadoras. No fundo, o que eu sentia era medo de viver, mesmo vivendo absurdamente.
Paradoxo total.
Em dado momento, cansada de fugir, deixei-me afundar em meu mar revolto, enfrentando polvos e tubarões emocionais em braçadas que, pouco a pouco, foram se fortalecendo à medida que deles me libertava.
Percebi que só trazendo o medo para sentar-se na minha consciência, olhando-o de frente e perguntando: “O que queres ensinar-me hoje?”, é que pude seguir. Aceitar que o mal-estar faz parte da vida, que a dor não é inimiga, mas aviso.
O bem-estar mental e emocional não se compra numa farmácia, nem se encontra em diagnósticos. Ele nasce, aos trancos e barrancos, na coragem de querer ser inteiro, mesmo imperfeito.
Nasce no ato de educar os sentidos a serem precisos no reconhecimento das afinidades e fiéis o suficiente para sinalizar os perigos reais. Dessa parceria brota a consciência de que somos frágeis e é justamente essa fragilidade que nos permite crescer. Não precisamos mostrar perfeição, mas sim assumir-nos como lindas criaturas em constante aprendizado. Existir não significa ausência de medo, frustrações ou perdas e sim, coragem de reconhecê-los, enfrentá-los e superá-los.
No tocante às emoções, nada cai do céu além do sol e da chuva, nem das farmácias, além das dependências.
É... Hoje, estou pra pouca conversa, até mesmo com meus pássaros e borboletas.
Regina Carvalho – 29.08.2025, Tubarão – S.C.
Nenhum comentário:
Postar um comentário