Querido amigo, pai, companheiro inseparável desta minha longa jornada terrena, cá estou, quietinha, como sempre gostei de estar, pois é nesse silêncio que a minha alma desperta e tudo se faz límpido, como as benditas águas dos longínquos riachos, onde as ações e intenções humanas ainda não contaminaram a pureza do existir.
Como ser frágil e inseguro em meio às parafernálias humanas, desde a tenra idade foquei-me na tua figura forte, de inquebrantável guerreiro. A tua referência despertou em mim o desejo ingénuo da infância: o de que, um dia, me vestirias com igual fortaleza.
E, para tanto, desembainhei a espada afiada da integridade, desprovida das costumeiras hipocrisias, revelando-me tal como sou, para espanto e incredulidade, mas jamais indiferença daqueles que, nas arenas da vida, duelaram comigo.
O tempo voa, e a espada hoje pesa mais do que outrora…
Tudo, a cada dia, torna-se tão surreal na convivência humana que, em vez de me revoltar pela impotência que me domina, roubando-me até a possibilidade de interceder à minha volta, permaneço serena graças a ti, meu incansável escudeiro e intercessor junto ao bendito Deus. Restando-me uma compreensão que, mais do que consolar-me, ainda me reserva um facho de luz: a bendita esperança de que, um dia, talvez, essa humanidade corrompida pela cegueira existencial possa finalmente enxergar-se em pelo menos uma das infinitas grandezas que a vida oferece.
Mais do que moedas, brilhos e ostentações; mais do que o feijão com farinha e o Deus fabricado nos templos das ilusões, que o homem, na completude da sua própria criação, integre-se ao todo, permitindo que a sabedoria que lhe é nata aflore e desabroche como o real e palpável milagre da vida, que nada mais é do que o Deus que nele reside.
Esse Deus amigo, que desconhece a indiferença, está sempre pronto a responder, através de sinais inconfundíveis, a toda e qualquer dúvida que se possa ter. Basta que a Ele estejamos ligados pelo cordão invisível da fé e da confiança, não cega, mas plena da certeza absoluta de que, ao tocá-lo, automaticamente n’Ele estaremos tocando.
Mais um Natal se aproxima, e a Terra mingua sob o peso da especulação, da vaidade e da absurda ignorância de não se compreender que ela é mutável, exatamente como cada um de nós.
Regina Carvalho
Tubarão – SC, 16.12.2025

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